1 ano sem Armando Nogueira (com texto do Mestre, sobre Dener)

UMA ALEGRIA QUE SE VAI

A morte silencia os pés de Dener.

Pés polêmicos. Angelicais.

Não o conheci pessoalmente. Conheço-o, apenas, de colossais cintilações com a bola. Vi-lhe, porém, mil vezes, o rosto na televisão. Tinha olhos de desenho animado. Redondinhos. Duas bolinhas de meia. Levemente, tristes. Olhar de drible. Dissimulado de quem pressentia um golpe traiçoeiro da vida. Morreu dormindo. Só assim mesmo: desperto, teria driblado o destino.

Desde Garrincha, ninguém driblou neste mundo com a graça e a audácia de Dener. Oferecia a bola, sonso e doce manjar. O rival, de bote armado. Infausta missão. Dener saía, fogoso, fagueiro, a versejar com a bola, sua musa. Ela, só dele. Se não era poeta, Dener jogava um futebol poético. Seus dribles hão de pulsar sempre no meu peito que, agora, se consome de tristeza.

É mais uma alegria que se vai do futebol. Como tantas que se foram noutros pés, agora, relembrados, com infinda saudade. Pés poéticos, que reiventaram a árida geometria do futebol. Quando o via a driblar e fintar meio mundo, eu me perguntava, morto de inveja: de que servem meus pés, se Deus não me ensinou a driblar como Dener?

Consola-me imaginar que o anjo que levou Dener deste mundo é o mesmo que alçou os pés de Garrincha, no vôo derradeiro.

Consola-me saber que, enfim, Dener está liberto de chuteiras, de escudos, de críticas, de palmas, de bandeiras. Consola-me, Dener, saber que driblarás, agora, sem tensão,  no silêncio do teu céu. Como Canhoteiro, jogarás de pés descalços. Como Garrincha, peito nu. Intangíveis feito a tarde musical dos campos em delírio.

Três anjos do futebol celestial.

Confesso que tu partes, Dener, sem me ter feito um grande favor. Sempre esperei de ti que, um dia, ainda haverias de driblar, de uma vez, os dois times de um mesmo jogo: o teu e o dos outros; e que haverias de entrar, magnífico, com bola e tudo, nos dois gols, ao mesmo tempo. Porque tua bola, anjo Dener, sempre rolou acima do bem e do mal. Nem derrota, nem vitória. Só devaneio. Tua bola nunca foi a bola dos homens, que é meio de vida. Tua bola sempre foi e será a bola dos meninos, que é fantasia, apenas.

Teus troféus, que eu saiba, foram todos esculpidos no tempo e no vento. Na pureza da grama que florescia de teus dribles. Flor de tantas relvas por teus pés pisadas.

E porque me lembras outro menino, na efêmera eternidade de um drible, despeço-me de ti, com a mesma prece com que me despedi de Garrincha:

Onde quer que estejas, cuida bem de ti, porque, um dia, hás de voltar à brisa dos campos como a lua que volta ao pátio dos poetas.

Armando Nogueira

…………………………

01 ano sem o Mestre Armando Nogueira.

Armando não deixou somente saudades. Grande parte de sua Obra está espalhada em nosso meio, seja na TV, livrarias, bancas, redações etc.

Olhe para o lado e perceberá o quão presente se faz o filho mais ilustre Xapuri.

Agradeço o Sr. Saulo Caffaro pelo envio do belíssimo texto e Juca Kfouri por atender, fazer e acontecer o pedido desse fã que vos fala.

E me despeço torcendo para que Armando goste dessa homenagem. Em meados de 2000 enviei-lhe um e-mail, pedindo o texto sobre Dener, para criar uma arte em homenagem a um dos maiores dribladores que vi jogar… e imagine minha surpresa ao receber como resposta: ” – Caro Fellipe, segue o texto do Dener. Assim que finalizar a arte, envie para apreciação, por favor. Abraço.”.

Peço desculpas pela demora, perdi o texto original quando minha conta do Hotmail foi zerada,  mas fico feliz por cumprir a promessa de publicar essa homenagem, mesmo que tardia, para Dener e, principalmente, para o Mestre.

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~ por felldesign em março 29, 2011.

3 Respostas to “1 ano sem Armando Nogueira (com texto do Mestre, sobre Dener)”

  1. Armando Nogueira era genial.

    Toda a magia e espetáculo do futebol que a TV aqui no Brasil não consegue transmitir, você encontra nas crônicas (e textos em geral) nos textos do Armando Nogueira.

    Grande homenagem!

  2. Armando era um fora-de-série, sem dúvidas. Poeta único ao narrar as alegrias e tristezas que o futebol proporciona.
    Mas esta charge me fez lembrar de um gênio, esquecido, que foi o Dener. Era adolescente e ficava doido pra chegar em casa, das peladas, e ver se o Dener tinha aprontado das suas. Futebol, alguns anos não tão distantes, não era farto na tv como é hoje. E era sempre uma alegria ver aquele moleque driblar de forma tão rápida, inteligente, imprevisível e quase sempre com cheiro de gol. Neymar me lembra ele, mas Dener, na minha opinião, foi o último grande jogador brasileiro que antecedeu a época do mercantilismo europeu fácil, das grandes somas de dinheiro por um jogador. Dener jogou felizão na Lusa, antes de cometer o pecado de defender o eterno vice do Rio de Janeiro. Se Dener tivesse ido ao Mengão, teria sido o êxtase. E se fosse hoje em dia, Dener não faria nem um paulistinha completo pela Lusa.Salve Dener, Armando e o Fella, pela homenagem!

    • Você QUASE tirou nota 10 no seu comentário… não fosse um pequeno errinho bobo:

      “Era adolescente e ficava doido pra…”

      Você foi adolescente nos anos 80, rapá! Você é o maior GATO do Centro-Oeste que se tem notícias!

      E não estou falando de beleza aqui não!!!!!!

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